Semana Social 2019: o BAIRRO é lugar de criatividade e práticas transformadoras

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Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam e seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz. 

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Cecília Meireles

Encontramo-nos, na noite passada (21/8), com os ‘pobres com um balde’, pessoas que no seu caminho, em suas quebradas, caminham ofertando gotas de esperança para todos aqueles que vivem nos bairros que compõem a região da Paróquia Santíssima Trindade, a saber: Cristina, Palmital, Nova Esperança, Nova Conquista, Belo Vale, Castanheiras e Três Corações. 

A segunda noite no fórum de debates da Semana Social 2019 propôs um encontro de quem em algum momento na vida percebeu que seu agir poderia e deveria ser colocado em prática para cuidar, salvar e direcionar vidas. Assim, jovens do Espaço Magis Trindade convidaram seis moradores da região para um tempo de partilha daquilo que os motivou a práticas criativas e que transformam vidas. 

Advogada e analista social de um projeto do Governo, Dayana Fonseca chegou ao bairro Palmital e logo sentiu-se impactada pela violência aqui percebida. Isso motivou seu projeto de vida a uma experiência de cuidado que envolve toda a comunidade que para ela se tornou lugar de habitação e vida.

“Pequenas ações nos salvam, pois nas minimas e cotidianas ações, temos a oportunidade de puxar outras pessoas a pensar no coletivo e a provocar o poder público a uma ação em beneficio da comunidade que vai em busca da solução de seus problemas e questões”, disse Dayana. 

Atenta ao que acontece na quebrada das quebradas, a periferia das periferias, Nana Jane alerta para a importância da descentralização de ações que pretendem transformar a vida das pessoas. Ao lado de muitos colaboradores, ela falou de sua experiência a frente do projeto ‘Doce Natal’.

“A praça é pequena pra mim, pois para sabermos o que acontece de verdade em nossos bairros precisamos subir e estar nas suas quebradas. O projeto Doce Natal nasceu no encontro com essas vidas que não vistas na praça, mas nas ruas e esquinas de lugares em que muita gente não chega”, afirma Nana. 

“Estou com a senhora”, respondeu o jovem Denis Alexandre à mãe, à época, quando ela recolhia alimentos para doação as famílias que mais precisavam. Mesmo sendo tido como garoto agitado e espevitado, encontrou na escola, no incentivo de uma professora, a chave que abriu portas para o trabalho desenvolvido por ele, hoje, no esporte e com o grafitte.

Responsável pela quadrilha junina “Arraiá do Sol Nascente”, o jovem Heli de Oliveira, mais conhecido como Lili, é categórico ao afirmar que um trabalho que transforma realidade é aquele que transborda o gosto pelo fazer e que é feito para ser visto de modo muito especial pela comunidade do lugar onde nasceu.

“Mais de mil pessoas, entre bailarinos e colaboradores, já passaram pela Sol Nascente e o que pedimos a cada uma é que mantenham-se sempre motivados a fazer o que gosta. Isso é valioso demais e garante que consigamos chegar com nosso trabalho em qualquer lugar, reconhecidos pela alegria que provocamos a quem nos ver dançar”, recorda Lili. 

Ele é um artista e integra a Casa do Hip Hop ‘Pruzôto’. Falamos do Douglas, o já conhecido em toda a cidade como Dod Justaposição, quem destaca seu trabalho na atenção e na acolhida a toda pessoa. Outro ponto por ele defendido está pautado na formalização das ideias e ações que pretendem ou que já são referências e sólidas nos bairros. 

“A casa Pruzôto acaba de completar um ano e está em um bonito processo de formalização, que conta com a ajuda de diferentes mãos. Somos parte de uma geração que acredita na mudança e, por isso, a nossa casa será um espaço de superação e ajuda para todas as pessoas que também querem ajudar que sejamos melhores uns para os outros”, finaliza Dod. 

Todas as pessoas

Ao concluir o bate papo com essas cinco vozes da comunidade, Marcelo Barbosa recorda que a atividade busca lembrar que todas as pessoas, todas elas, podem ter gestos que provocam um efeito de mudança social. “Somos corresponsáveis na manutenção da vida e na gestação de uma comunidade unida, promotora do diálogo, do cuidado e da partilha”.

Isso sendo feito, devolve a esperança a quem já a havia perdido, como disse o padre José Carlos SJ, na abertura dessa segunda noite da Semana Social. “Conversar com as pessoas, neste tempo de degradação não só da natureza, mas da pessoa humana que é o dom mais belo de Deus na natureza, é o mais importante ato de mudança, pois temos a chance de dizê-los que ainda existe força no coração daqueles que fazem suas ações transformadoras em nossas comunidades, em nossos bairros”, conclui. 

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Vamos falar sobre a Cidade
lugar onde a Justiça se faz na ótica do cuidado

De novo no Espaço Providência da Comunidade Nossa Senhora da Penha, localizado à Avenida Yolanda Teixeira da Costa, 1.606 – no bairro Palmital (Setor 6), a Semana Social terá sequência com uma reflexão sobre a cidade, essa experiência viva que deve ter como cerne de seu viver a Justiça, sob um olhar de forças que cuidem dos seus habitantes.

Participe conosco! Logo mais, às 20 horas, desta quinta-feira (22/8).

Veja mais registros em nosso Flickr! Clique aqui!

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