Para entender a proposta do Ano Nacional do Laicato *

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(*) Texto da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil

Após as comemorações do Ano Nacional Mariano, instituído pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Igreja no Brasil agora celebra o Ano do Laicato que se iniciou no  dia 26 de novembro, Festa de Cristo Rei e dia do leigo e da leiga.

Com o tema “Cristãos Leigos e Leigas, sujeitos na ‘Igreja em saída’, a serviço do Reino” e o lema “Sal da Terra e Luz do Mundo”, a iniciativa de acordo com o papa Francisco, deseja fazer crescer “a consciência da identidade e da missão dos leigos na igreja”.

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O termo “leigo” vem da palavra grega “Laos” que significa “povo”. Por isso, leigo/a é um/a participante do Povo de Deus. Por isso, todo batizado/a é leigo/a e tem sua responsabilidade na participação desse Povo=comunidade.

“O Ano do Laicato nos empolga e fomenta em nós uma feliz e agradável expectativa, para juntos escutarmos o que diz o Espírito Santo aos nossos corações e assumirmos a ação transformadora na Igreja e no mundo. A obra é de Deus e de todos nós”, afirma o presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Laicato da CNBB, dom Severino Clasen.

O bispo espera que no Ano do Laicato, a partir de cada reflexão, os/as leigos/as possam ouvir Jesus Cristo os/as chamando e os/as enviando para serem sal, luz e fermento na massa. “Vamos todos, através da oração e meditação da Palavra de Deus, de olhos abertos para a realidade onde vivemos, transformar as injustiças em relações de paz e amor”, exorta.

Durante este ano, leigos e leigas são convidados a refletir e valorizar sua vocação laical, sua participação na vida e missão da Igreja e sua presença cristã na sociedade. Os/As leigos/as são os “apóstolos de Cristo” nas múltiplas realidades deste mundo e têm a missão de levar a todo lugar o fermento, o sal e a luz do Evangelho. Essa missão é grande e desafiadora!

imagesO lugar da atuação e testemunho dos leigos e leigas é duplo: de um lado, sua participação é indispensável na vida e missão interna da própria comunidade eclesial. Cada batizado/a participa, de maneira própria ao seu estado, da missão evangelizadora através do testemunho da fé, da catequese e anúncio do Palavra de Deus e de muitas outras formas. Participa igualmente da missão pastoral, animando muitas iniciativas voltadas para o bem pastoral; e participa, de maneira solidária, da promoção da caridade e da provisão dos meios necessários à missão evangelizadora das comunidades.

Entretanto, a grande missão dos/das leigos/as não acontece no interior da comunidade eclesial, mas no vasto mundo das realidades sociais, culturais, políticas e das responsabilidades sociais, em que a Igreja não age de maneira institucional, mas através do laicato. Ali, eles/elas são os/as apóstolos/as do Evangelho e levam, com a força do Espírito Santo, a luz, o sal e o fermento da Boa Nova para os diversos ambientes e circunstâncias das “realidades terrestres”.

A eclesiologia do Concílio Vaticano II expõe a teologia básica do laicato em dois de seus Documentos: Lumen Gentium, sobre a Igreja (cap. IV), e Apostolicam Actuositatem, sobre a ação apostólica dos Leigos. Em diversos outros Documentos posteriores, o Magistério pontifício explicitou e ampliou o pensamento oficial da Igreja a respeito dos leigos e leigas na vida e na missão da Igreja, de maneira especial, na Exortação Pós-sinodal do Papa São João Paulo II – Christifideles Laici (1988).

O Ano Nacional do Laicato deve ser uma boa ocasião para a maior valorização dos leigos e leigas na Igreja, conforme a teologia do Concílio Vaticano II. Ainda se faz necessário ir além de certa ideia, segundo a qual a Igreja seria uma organização do clero, sendo os leigos apenas beneficiários do serviço ou do poder do clero. Não está correto dividir a Igreja entre uma parte ativa e outra, passiva. Nem se pode cair na tentação de fazer uma eclesiologia sindical, classista ou corporativista.

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A Igreja é feita de batizados/as, de igual dignidade enquanto filhos e filhas de Deus, agraciados pela misericórdia de Deus e pela graça da Redenção, participantes do mesmo patrimônio da fé e esperança, herdeiros das mesmas promessas de Deus. Há sim, na Igreja, serviços e missões diversas, segundo os dons que Deus distribui para a vida da mesma Igreja e para o exercício da sua missão.

O Reino de Deus é dom e graça de Deus e nós o acolhemos, tornando-nos seus servidores e testemunhas. E toda a comunidade dos batizados é chamada a dar esse testemunho perante o mundo: é um reino de vida e verdade, reino de santidade, justiça, amor e paz. O Brasil tem grande necessidade desse testemunho, através da ação dos leigos e leigas em todos os ambientes, no exercício das competências e responsabilidades privadas, sociais e públicas.

“Aos leigos compete, por vocação própria, buscar o Reino de Deus, ocupando-se das coisas temporais e ordenando-as segundo Deus. Vivem no mundo, isto é, no meio de todas e cada uma das atividades e profissões, e nas circunstâncias da vida familiar e social, as quais como que tecem a sua existência. Aí os chama Deus a contribuírem, do interior, à maneira de fermento, para a santificação do mundo, através de sua própria função; e, guiados pelo espírito evangélico e desta forma, manifestarem Cristo aos outros, principalmente com o testemunho da vida e o fulgor da sua fé, esperança e caridade.” (Conc. Vat. II, Lumen Gentium 31).

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Durante o Ano do Laicato também será comemorado os 30 anos do Sínodo Ordinário sobre os Leigos (1987) e da Exortação Apostólica Christifideles Laici, de São João Paulo II, sobre a vocação e a missão dos leigos na Igreja e no mundo (1988).

O documento 105 da CNBB trata especificamente desse tema.

“O Concílio não olha os/as leigos/as como se fossem membros de segunda categoria, a serviço da hierarquia e simples executores de ordens provenientes do alto, mas como discípulos de Cristo que, através do Batismo e sua inserção no mundo, são chamados a animar todo ambiente, atividade e relação humana segundo o espírito do Evangelho…. Ninguém melhor que os leigos pode desempenhar a tarefa essencial de inscrever a lei divina na vida da cidade terrena.” (Papa Francisco na mensagem aos participantes da jornada de estudos sobre a “Vocação e missão dos leigos”, em 12/11/2015).

Neste sentido, importa também destacar o pronunciamento do papa Francisco na Assembléia do Pontifício Concilio para os Leigos, em 17/06/2016, quando propôs, como horizonte de referência para o imediato futuro, o seguinte binômio: “Igreja em saída” e “laicato em saída”, lançando o olhar para os que se encontram ‘distantes’ do nosso mundo, às tantas famílias em dificuldade e necessitadas de misericórdia, aos campos de apostolado ainda inexplorados, e aos numerosos leigos, que devem ser envolvidos e valorizados pelas instituições eclesiais. Na ocasião, o Santo Padre concluiu seu discurso dizendo: “precisamos de leigos bem formados, animados pela fé cristã, que “sujem suas mãos” e não tenham medo de errar, mas que prossigam adiante. Precisamos de leigos com visão do futuro e não fechados nas pequenezas da vida, mas experientes e com novas visões apostólicas”.

Essa proposta de enfoque na ação pastoral e social resgata a concepção de uma Igreja Povo de Deus, com inspiração no Concílio Vaticano II e a coloca diante dos desafios da missão atual que papa Francisco tão bem traduziu de uma ‘Igreja em Saída‘ na exortação “Alegria do Evangelho” e na encíclica “Laudato Si’, sobre o cuidado com a Casa Comum”.

É um necessário resgate da graça batismal em sua tripla missão: profética, real e sacerdotal. Significa uma relação de maior maturidade e autonomia dos/as batizados e batizadas não ordenados frente ao desafio de fermentar o Reinado de Deus numa sociedade que despreza a vida, tanto humana como do conjunto da Natureza, em função do dinheiro e do lucro.

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