Acolher a correção fraterna é passo importante para boa convivência na comunidade de fé

Durante as celebrações do 23 ° Domingo do Tempo Comum, o padre José dos Passos, pároco da Paróquia Santíssima Trindade nos possibilitou uma oração pelas relações fraternas nas comunidades de Fé. A partir da narrativa do Evangelho de São Mateus, padre Passos, em sua homilia, afirmou que ao acolher a correção fraterna que o outro nos faz, temos muitas portas abertas para a boa convivência na comunidade. Confira em áudio e texto. Clique aqui para ouvir, ou leia abaixo, a transcrição da homília.

Homília do Padre José dos passos no 23º Domingo do Tempo Comum

O Evangelho de São Mateus é composto por cinco grandes discursos de Jesus, que são as orientações dadas por ele a seus discípulos. E este trecho que ouvimos hoje, 22º Domingo do Tempo Comum, é colocado naquele discurso que a gente chama de discurso ou sermão da igreja, no qual Jesus estabelece o modo como seus seguidores deviam se portar. As informações de como devem ser as lideranças dentro da comunidade e como devem ser as relações fraternas dentro da comunidade estão no capítulo 18 do Evangelho de São Mateus. É isso que estamos ouvindo hoje.

Padre Passos recorda da correção fraterna em suas missas na igreja Nossa Senhora da Penha, nesse domingo (7/9).
Padre Passos recorda da correção fraterna em suas missas na igreja Nossa Senhora da Penha, nesse domingo (7/9).

O ensinamento do Senhor é para seus discípulos, é para nós mesmos que queremos segui-lo. Jesus deixou esses ensinamentos para sua igreja, primeiro porque ele confiava sua missão à igreja. Do mesmo modo que ele passou a vida fazendo o bem, deixou um ensinamento para que sua comunidade fosse um sinal do bem, realizando no mundo as coisas boas que ele mesmo fez. Assim, os discípulos de Jesus são convidados a viver de uma maneira nova, a sua fé e o seu modo de ser, no qual, o modelo para nossa existência é o modo como o próprio Deus nos trata.

Jesus diz isso a seus discípulos: “sejam perfeitos como vosso Pai Celeste é perfeito”. É a esse nível que Jesus quer que seja sua igreja. Ele deseja que sejamos perfeitos como o pai é perfeito. E a perfeição de Deus nos é revelada no amor, na misericórdia, na ternura com que Ele trata a cada um de nós. Assim, entramos em um tema que esta sendo falado no Evangelho de hoje, a correção fraterna.

CORREÇÃO FRATERNA

A correção fraterna significa que devemos nos preocupar pela vida do outro, mas não como quem quer e deseja fazer fofoca. Para esses, que desejam fazer fofoca pela vida alheia, vale o que está escrito nos para-lamas dos caminhões: “Deus deu a cada um a sua vida para que cada um cuide da sua”. Não é nesse sentido que devemos nos preocupar com o outro, a gente tem que se preocupar com o outro, por que a outra pessoa tem valor e importância para mim.

Correção-fraternaQuando eu amo alguém, quero que essa pessoa seja feliz. E por essa razão, não posso ficar contente, não posso ter alegria, se eu vejo que o meu irmão, a pessoa que eu amo, está destruindo a sua vida. Sabemos que ele tem a responsabilidade sobre aquilo que faz. Sabemos também que é ele o primeiro responsável sobre a besteira que fez, mas as leituras de hoje são claras para nós. Se a gente deixar alguém no caminho que vai destruir a sua vida e não o alertamos e não falarmos, Deus mesmo vai pedir a nós, a conta da nossa omissão.

Nós não podemos ser omissos diante do mal que consome a vida de uma pessoa. Temos que alertá-la para o perigo que está passando. “Meu irmão, não seja tonto, perceba que você esta indo pelo caminho errado”, “Não é possível que você não perceba que esse caminho só vai te trazer destruição”. No mínimo, temos que alertá-lo para não seguir por um caminho que o leve à morte.

Agora, se ele continua optando por esse caminho, o Senhor é muito claro, ao afirmar que a responsabilidade é inteiramente dele. Mas, e nós, como comunidade, o que podemos fazer? Se alguém esta errado, sempre temos a possibilidade de convidar outros para falar com a pessoa, “olha meu irmão realmente você está errado, não é só essa pessoa que está falando, mas nós temos percebido”. Se aquela opinião ainda não for considerada, que toda a comunidade seja levada a falar com a pessoa.

COMUNIDADE, LUGAR DE PESSOAS QUE BUSCAM SE CONHECER

A nossa comunidade deveria ser um espaço onde nos conhecêssemos uns aos outros. Esse é o modelo de comunidade que devemos ter e viver, buscando nos conhecer com intensidade, amor, e com o desejo de que o outro seja mais feliz, com desejo de que o outro seja uma pessoa realizada.

Ocorreu a primeira etapa do batismo de cinco crianças na igreja da Penha nesse domingo (7/9).
Ocorreu a primeira etapa do batismo de cinco crianças na igreja da Penha nesse domingo (7/9).

É por isso, por esses desejos todos, que a nossa comunidade tem seus grupos e pastorais. Quem não participa de alguma pastoral está sempre sendo convidado a participar, para que ele também possa ter essa vida de comunidade. Mas faço um alerta, a vida de comunidade é, ao mesmo tempo, a coisa mais bonita, legal, interessante e valiosa que temos no Cristianismo, mas também é das coisas mais complicadas de se viver. Por quê?

Porque temos dificuldades, como humanos que somos, de nos ajudar uns aos outros e de deixar cair as máscaras que colocamos no dia a dia de nossas vidas. Quando nos aproximamos das pessoas e começamos a conhecê-las, a gente vai ver que ela não é tão boa como pensávamos. Mas o contrário também é verdadeiro, quando conheço a pessoa, percebo que meus preconceitos vão caindo e posso descobrir que aquela pessoa pode ser muito melhor do que eu desejava, queria ou pensava.

A vida de comunidade é o que o Senhor Jesus deixou para nós como o mais importante bem. Porque é na comunidade que a gente pode viver o mandamento maior que é o AMOR. São Paulo nos ajuda ao recuperar do Evangelho de São Mateus, esse mandamento que nos indica como devemos tratar uns aos outros, fazendo ao outro aquilo que gostaríamos que ele nos fizesse.

Essa é a regra básica de todo relacionamento e serve para nós cristãos, porque seguimos o Senhor Jesus, mas serve também para todo o mundo, pois no fundo, aqueles que não são cristãos, diante de Deus, serão julgados por isso.

RECONHECER-SE NO OUTRO É CONDIÇÃO PARA A CONVIVÊNCIA CRISTÃ

Cada um de nós sabe onde é que seu sapato aperta. Sabemos daquilo que nos provoca dor e chateação, daquilo que não gostamos e que nos provoca raiva. Muito bem, sabemos disso, então é preciso entender que não devemos fazer ao outro, situações que lhe causa dor ou sofrimento. Trate o outro como você gostaria de ser tratado.

Antes de a igreja ser aberta estava sentado lá no fundo e tinha uma touca na cabeça por conta do frio, vi as pessoas passando e elas não me reconheciam, então falei com o Adriano, “olha meu irmão, a gente está meio invisível hoje, as pessoas não nos reconhecem”.

É uma situação que acontece, mas ninguém quer ser tratado dessa maneira, como uma pessoa invisível. Todos nós gostamos de ser reconhecidos, de que as pessoas nos pergunte como está a vida ou como estamos. Essas perguntas deveriam ser feitas por pessoas que nos conhecem, que sabem nosso nome e conhecem nossa vida. Essa é a maneira como devemos tratar as outras pessoas.

Vocês já pensaram que beleza seria nossa comunidade se vivêssemos isso? Os primeiros cristãos viviam isso com tanta intensidade, que quem não era cristão olhava para eles e diziam: “puxa, como eles se amam”. Olha que coisa bonita, imagine as outras pessoas falando assim da comunidade Nossa Senhora da Penha: “olhem que comunidade onde as pessoas se dão tão bem, como elas se gostam, como elas se ajudam, como elas melhoram esse bairro pela sua presença”.

O Senhor Jesus gostaria que vivêssemos como pessoas que cuidam uma das outras. Então, pergunto a todos nós, não está na hora de a gente começar a trabalhar para isso? Uma coisa tão simples: tratar o outro como gostaríamos de ser tratado pelo outro.

PROATIVIDADE CRISTÃ É REVELADA NO CUIDADO COM O OUTRO

Às vezes nos deparamos com perguntas do tipo, “por que você não ajudou o fulano?”. A resposta em muitos casos é essa: “ele/ela não me pediu ajuda”. A pergunta então pode ir para esse rumo: “Nossa! Ele estava carregando um peso de 60 quilos, você não viu que ele precisava de ajuda?”, mas a resposta segue a um ritmo parecido à primeira: “ele não me pediu e nem falou nada, se precisasse da minha ajuda teria me falado”.

Padre Miguel sempre se pergunta "em que posso ajudar?" Ele é uma pessoa proativa.
Padre Miguel sempre se pergunta “em que posso ajudar?” Ele é uma pessoa proativa.

A gente parece estar sempre na defensiva, parece que estamos sempre esperando para dizer “não falou de mim”, “não citou meu nome”, e quase nunca se fala, “eu estou aqui”, “me chama”, “eu estou pronto para servir”. Diante disso, nós precisamos ser mais proativos, porque a atitude deve sai é de nós, de mim mesmo, não devemos apenas esperar pelo outro.

Vejam que palavra bonita, proativos, palavra que quer dizer, “olha, eu estou aqui”, “estou pronto”, “posso ajudar”. O cristão deve dar o primeiro passo: “em que eu posso ajudar?”.

Temos uma pessoa muito proativa em nossa comunidade, às vezes fica até chato, mas eu adoro de ver isso nele. Ele está sempre assim respondendo a essa pergunta, “em que eu posso ajudar”. Parece que é um incomodo que ele sente no coração e que, ao ver qualquer coisinha, entra com muita disposição para ajudar.

Essa pessoa é o padre Miguel Elousa, vigário paroquial, as vezes chega a ser incomodo, mas é um caminho que todos nós poderíamos seguir nos perguntando cotidianamente, “em que podemos ajudar as outras pessoas” e não cair na tentação de ficar assim, estático e como um cachorrinho que caiu da mudança, que repete constantemente, “Ah, não me chamou”, “Ah, não pediu minha ajuda”.

COMO POSSO SER MAIS TESTEMUNHA DO AMOR DE DEUS ÀS PESSOAS?
ACOLHER A CORREÇÃO FRATERNA É O PRIMEIRO PASSO

Os mineiros são pessoas que não sabem lidar muito bem com a crítica, e essa é uma situação que nós, mineiros, devemos melhorar muito. Como reagimos diante de uma crítica? Geralmente, logo ficamos como um “Luiz Caixeiro”, parecido com um porco espinho, que sempre ataca a pessoa que está nos corrigindo. “Fulano veio me puxar à orelha, me dar lição de moral, mas olha quem está falando?”

Quem sabe não está na hora de descer um pouco a nossa guarda, a nossa defensiva e tentar compreender que o outro talvez tenha razão, quando ele nos ajuda com a correção fraterna.

É preciso tirar de nós esse negócio de sermos tão defensivos. Deus já derramou tanto o seu amor em nossas vidas, então vale a pena a gente se abrir para receber a ajuda do outro quando estivermos errados. De vez enquanto, como dizia o padre José Flavio Tardin, coloque uma pulga atrás da orelha sempre quando você tiver a certeza absoluta de alguma coisa. Pergunte-se se essa sua certeza é certeza mesmo, ou é somente insegurança.

O Senhor Jesus merece que sua comunidade seja mais santa. Ele merece que eu seja mais santo. Ele merece que cada um de nós seja mais santo. Por quê? Porque ele nos ama, porque ele está presente em nossa vida, porque toda vez que nos encontramos em seu nome, ele está presente em nosso meio.

Vale a pena a gente abrir o nosso coração para sermos ajudados pelas outras pessoas. Porque é daqui da nossa comunidade que a gente tem que apresentar ao mundo o amor que Deus derramou em nossos corações, vivendo relações fraternas de uns para com os outros. Cada um que Deus colocou em minha vida é pessoa importante, e eu devo dar atenção a ela, para servi-la melhor. É assim que a gente constrói o Reino de Deus em nossas vidas e em nossa comunidade.

Convido cada um a dirigir seu pensamento e o coração a Deus e pedir a Ele essa iluminação. “Senhor, em que eu posso ser melhor na minha vida, como posso ser mais testemunha do seu amor às pessoas?”

Quando assumimos o cuidado para com o outro, apesar de parecer pouco, assumimos lutas em nome de toda a comunidade. No domingo (7/9), fieis participaram do plebiscito pela Constituinte Exclusiva.
Quando assumimos o cuidado para com o outro, apesar de parecer pouco, assumimos lutas em nome de toda a comunidade. No domingo (7/9), fieis também participaram do plebiscito pela Constituinte Exclusiva.

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